Bernardo Pinto de Almeida
esteve sempre envolvido em coleções institucionais. Estive ligado à
coleção de Serralves na comissão de compras entre 85 e 92, depois de 92 a 95
estive ligado ao grupo que organizou a coleção do MEIAC em Badajoz, de 1996 a 2002
à Fundação Cupertino de Miranda. Como crítico estive ligado à atividade
colecionista portuguesa e à sua transformação ao longo de 25 anos.
Como curador de coleções
estive ligado à Fundação de Serralves, numa comissão que incluiu o Fernando
Pernes, o Alexandre Melo e o arquiteto Nuno de Almeida, o programa era de dotar
o futuro museu de arte moderna de uma coleção consistente do ponto de vista da
arte moderna, sem nunca perder de vista a arte contemporânea portuguesa a
partir da década de 60 até à década de 80.
Temos vários museus de arte
contemporânea que não cumprem essa função, como Serralves e Chiado. O problema
é que se comportam como centros de arte e não como museus, com a exceção da
Gulbenkian, que constitui uma coleção modernista. Por outro, o Estado em
Portugal não vigia como deveria práticas culturais dos museus a quem entrega o
dinheiro, se estão a cumprir os estatutos, não temos uma comissão que analise
isso, como há em Inglaterra, com o ICA (Institute of Contemporary Art), que
vigia de facto, existe também em Espanha, França e E.U.A..
Por exemplo, numa certa
altura levantou-se suspeitas das relações entre o Museu do Chiado e a Fundação
Elypse, pela simples razão que o diretor do Chiado era também curador da
Fundação Elypse e muitos artistas que tinham exposto no Chiado tinham exposto
na Fundação Elypse.
O problema de Portugal é que
de 1000 colecionadores potenciais, talvez só 50 ou menos tenham uma pequena
ideia do que existe nas coleções dos museus e não estão suficientemente
esclarecidos dos processos que conduziram a isso. Nas instituições portuguesas
ainda estamos no plano do gosto, o museu tal tem um diretor que gosta de
croissant com fiambre, o outro museu tem um que só gosta de água do luso, e
depois os artistas que não estão nem num nem noutro grupo nunca podem ver os
seus trabalhos expostos.
A
galeria Nasoni teve um impacto muito grande no mercado da arte ao inflacionar
os preços, porque procurava criar uma dinâmica próxima da internacional. E
desde cedo eu afastei-me por não concordar com isso. Quando a galeria começou a
criar reputação, visibilidade e dinheiro, alguns dos sócios fundadores
gananciosos deixaram cair o barco e aproveitam as mais-valias para ir embora.
Primeiro ponto, a sustentação económica desapareceu; segundo problema: a Nasoni
não tinha projeto cultural sério, muitos dos artistas com quem trabalhou foi um
mero acaso, uns eram bons, outros eram maus, outros eram assim assim. Houve
muitos artistas que entraram e saíram e os que ficaram não foram os melhores nem
os mais interessantes. Portanto, com tantas perdas a Nasoni caiu, tendo criado
a ilusão que havia um mercado de arte. O mercado é cego, vai para onde julga dá
mais.
O crítico de arte é um
agente que funciona do lado do artista, que o proteja do mau mercado, tem o
papel de produzir um pensamento construído sobre aquilo que a arte ensina, que
compreende o idioma da arte e o traduz para toda a gente.
Fernando Pessoa, além de um grande poeta é um
grande crítico que estava constantemente a desafiar a criação que se faz à sua
volta. Em Portugal há muito poucos críticos que o façam atualmente. Hoje há uma
regressão nesse campo, os jornais fecharam-se. Há por outro lado uma
disseminação de opiniões críticas na internet, mas a que muito pouca gente
chega porque são grupais, tendem para o tribalismo. Eu julgo ter feito parte da
última geração crítica que existiu em Portugal no sentido que havia várias
vozes que pensavam diferentemente e que às vezes se digladiavam e discutiam
entre si. Essa geração foi absorvida quase toda pelas instituições, e portanto
não houve espaço público que as acolhesse, como noutros países.
Em Espanha e França isso é
fortíssimo, os jornais querem jovens estagiários que digam umas coisas sobre
arte, neste momento também não há revistas de arte em Portugal, as que havia
fecharam.
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