A idade da inflação estética
está descentrada, des-hierarquizada, estruturalmente eclética.
Estamos numa cultura
fragmentada, balcanizada, onde se multiplicam as mestiçagens mais diversas,
onde coabitam os estilos mais dissemelhantes, onde as tendências cool
proliferam sem ordem, sem regularidade temporal, sem unidade de valor. Com o
capitalismo transestético triunfa uma profusão caótica de estilos num imenso
supermercado de tendências e looks,
de modas e de design. É uma
proliferação dissonante, desregulada, que caracteriza o domínio estético
contemporâneo, paralelamente às desregulamentações económicas, constitutivas do
turbo capitalismo.
Encontramos em todos os
grandes museus do mundo as obras ou exposições dos mesmos artistas
contemporâneos em voga.
Segundo a Organização
Mundial de Turismo, tornou-se, com os seus 900 milhões de viajantes internacionais,
a primeira indústria do mundo, representando cerca de 12% do PIB mundial. Nunca
as exposições e os museus atingiram tais recordes de frequência, 8,8 milhões
para o Louvre, 6,5 milhões para o Palácio de Versalhes, 3,6 milhões do Centro
Pompidou, em 2011.
A dinâmica inflacionista não
diz unicamente respeito aos objetos, estilos e tendências, mas também aos
monumentos classificados (em França conta com 38.000 monumentos históricos e
300 aldeias pitorescas) e lugares de exposição de arte. Em primeiro lugar, os
museus e os centros de arte contemporânea: em todo o mundo, o número de museus
aumenta 10% de cinco em cinco anos, havia nos Estado Unidos, antes de 1920,
1200 museus e cerca de 8000 no início da década de 80. Diz-se por vezes, por
graça, que se cria um museu por dia na Europa: mais de 30.000 museus estão hoje
inventariados nos 27 países da União Europeia. Paris conta por si só com mais
de 150 museus. O número de museus em França é objeto de debate: em 2003, a
Direção de Museus de França declarava 1200 na categoria de “museus de França”,
mas além desta categoria alguns guias publicam listas que vão dos 5000 aos
10.000 museus. Dificilmente se encontra uma comunidade que não queira ter o
“seu” museu, como sinal de afirmação identitária e, o que não é menos
importante, como centro de atração turística suscetível de gerar visitantes e,
portanto, repercussões comerciais.
No decorrer da década de 80,
o número de galerias de arte conheceu um grande aumento, tendo praticamente
duplicado. Em 1988, o número de galerias elevou-se par 848. Muitas destas
galerias tiveram uma duração muito breve, o que fez com que, sendo a sua taxa
de mortalidade compensada por uma taxa de natalidade elevada, o seu número
permaneça relativamente estável. A edição do guia Bill’art 2004 apresentava 590 galerias
de arte moderna e contemporânea e estimava cerca de 6000 lugares “abertos ao
público com a vocação de apresentar todas as formas de arte”. Galerias que, de
facto, continuam a multiplicar-se ao mesmo tempo que o mercado da arte, saindo
dos limites do Ocidente, se mundializa. Presentemente são milhares de galerias
e de lugares de arte que apresentam em Xangai, São Paulo, Istambul, Abu Dhabi,
milhares de exposições e dezenas de milhares de obras de artistas, eles próprios
agora inúmeros.
Vaga que revela ainda a
multiplicação de bienais, salões e feiras de arte internacional em todo o
mundo. Depois da Documenta de Kassel e da Bienal de Veneza, contamos agora com
mais de cem bienais, que apresentam centenas e milhares de artistas. Mais de
260 feiras são anualmente organizadas em todo o mundo. A Ásia participa já em
pé de igualdade: a feira Art
Stage Singapore reuniu em 2012, 140 galerias e o HK Art, de Hong-Kong, o dobro. Às quais se
junta as feiras paralelas ou em “off”,
que juntam galerias mais jovens, menos estabelecidas e que apresentam artistas
menos conhecidos e mais baratos. Em Paris, em 2009,a FIAC apresentou 203
galerias de 210 países, e ainda mais 4 feiras off e
73 exposições. Em 2010, a Art
Basel Miami recebeu 2000 artistas, 29 países e 250 galerias, enquanto uma
multitude de feiras e de manifestações paralelas se desenrolava um pouco por
todo o lado na cidade. Feiras que se organizam agora em rede, e que funcionam
como multinacionais de arte: Art
Basel, depois de Basileia investiu em Miami e Hong-Kong, e a feira inglesa Frieze estendeu-se a Nova Iorque.
E o processo de expansão ampliou-se ainda com VIP Art Fair, a primeira feira de arte em linha
que reuniu em 2011, durante uma semana, 130 galerias internacionais que
apresentaram 7500 obras de 2000 artistas.
Com o capitalismo artístico,
o pequeno mundo da arte à antiga deu lugar à híper-arte,
superabundante, proliferante e globalizada, onde desaparecem as distinções
entre arte, negócios e luxo. Aqui, a profusão (obras e manifestações) nada tem
a ver com esbanjamento da “parte maldita”, cara a Georges Bataille; ela mostra a nova face do
capitalismo artístico que, ao adaptar-se com eficácia à multiplicação
planetária das grandes fortunas e de colecionadores, de investidores e outros
especuladores, criou um sistema de comercialização e de difusão da arte à
escala internacional.
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