A obra de Manuel Pereira da Silva organiza-se em núcleos temáticos reconhecíveis que atravessam décadas e meios expressivos distintos. A produção do artista pode ser dividida em duas orientações: a primeira inclui peças concebidas de acordo com a tradição académica do século XIX europeu, geralmente em resposta a encomendas específicas; a segunda mantém a figura humana como referência essencial, mas afasta-se da representação naturalista, adotando critérios formais de abstração. É nesta segunda vertente que residem as séries mais pessoais e artisticamente mais ricas.
1. A Figura
Feminina — Núcleo Central da Poética
A figura feminina
constitui o eixo estruturante de toda a obra de Pereira da Silva.
Frequentemente aborda temas como mulheres sentadas, mulheres reclinadas,
maternidade, família, homem e mulher, dança e crucificação. Embora as figuras
nas suas obras sejam por vezes quase completamente dissolvidas na abstração, há
uma presença constante de referências figurativas perceptíveis, indicando uma
ligação inquebrável com a representação do humano.
Criticamente, esta
persistência do feminino não é decorativa nem convencional — é estrutural. O
corpo da mulher serve ao artista como pretexto para uma exploração formal de
volumes, equilíbrios e tensões plásticas. A mulher sentada, reclinada ou em
repouso permite o estudo da relação entre cheios e vazios, entre a massa
escultórica e o espaço que a envolve — ecos claros de Henry Moore e, antes
dele, de Brancusi. Contudo, Pereira da Silva nunca abandona o pulso humano que
distingue a sua obra de um abstracionismo frio.
2. A Maternidade
— Entre o Universal e o Monumental
A maternidade é
talvez a série mais identificável e publicamente visível. Em 1958 realizou a
escultura em bronze "A Maternidade", instalada na Praça do Marquês de
Pombal, no Porto — uma das obras de maior impacto no espaço público portuense.
Esta série dialoga
com uma longa tradição escultórica universal (de Rodin a Moore), mas impõe-se
com uma linguagem própria: geometrização suave das formas, tendência para a
síntese da pose, supressão do detalhe anatómico em favor da essência do gesto.
A maternidade em Manuel Pereira da Silva não é sentimentalismo — é arquitetura
de corpos. O tema da maternidade atravessa também o trabalho em aguarela, como
evidencia a obra "Maternidade" de 1961, em aguarela sobre cartolina,
demonstrando que o artista trabalhava os mesmos temas em simultâneo em suportes
bidimensionais e tridimensionais, o que revela uma coerência de pesquisa formal
assinalável.
3. A Série
Religiosa e Cristológica — Fé e Modernidade
A obra religiosa de
Pereira da Silva é uma das mais ambiciosas e tecnicamente desafiantes. Estudou
na École des Beaux-Arts a técnica do afresco, que utilizou numa das suas
obras emblemáticas em Viana do Castelo, na Capela-Mor da Igreja de Santa Luzia,
com a narrativa bíblica na temática cristológica: a "Paixão de
Cristo" e a "Ascensão Gloriosa".
Esta encomenda
religiosa é, do ponto de vista crítico, um dos momentos mais tensos da sua
carreira: o artista modernista a serviço da iconografia cristã. O resultado —
frescos de grande escala numa capela-mor — obrigou-o a negociar entre a sua
linguagem abstrata e a legibilidade narrativa exigida pela tradição religiosa.
Numa exposição anterior, apresentou já uma "Cabeça de Cristo" em
aguarela, o que mostra que o tema cristológico o acompanhava antes das grandes
encomendas e era explorado também como pesquisa plástica independente.
A série da
crucificação, recorrente no seu trabalho gráfico e pictórico, é particularmente
reveladora: o corpo crucificado é, ao mesmo tempo, tema espiritual e desafio
formal supremo — a figura humana no limite da sua extensão, entre a vertical e
a horizontal, entre vida e morte.
4. A Escultura
Monumental e Cívica — O Trabalhador e o Herói Popular
Uma das séries mais
extensas é a dos monumentos de homenagem a figuras e profissões do tecido
social. Entre as obras desta natureza contam-se o monumento ao Lavrador em
Gulpilhares, os monumentos aos Bombeiros em Avintes, Gondomar e Freamunde, o
monumento ao Atleta em Avintes e o Monumento aos Industriais e Trabalhadores da
Indústria do Mobiliário de Paredes.
O "Atleta",
peça em bronze ao tamanho natural, foi solicitada pelo Futebol Clube de Avintes
com a finalidade de homenagear todos os atletas e os seus êxitos, inaugurada em
1973. Esta obra é exemplar da tensão entre encomenda cívica e visão artística:
o realismo exigido pelo retrato popular coexiste com a elegância formal que é
marca do escultor.
Do ponto de vista
crítico, esta série manifesta um posicionamento político implícito: ao eleger o
bombeiro, o lavrador, o atleta, o padre missionário — e não o general ou o
estadista — como sujeitos monumentalizáveis, Manuel Pereira da Silva
inscreve-se numa tradição humanista e popular que, no contexto do Estado Novo,
tinha ressonâncias subversivas subtis.
5. O
Baixo-Relevo Histórico e Narrativo
Os baixos-relevos
constituem uma série à parte, de enorme importância para a leitura da sua
linguagem formal. O baixo-relevo de D. Pedro Pitões no Palácio da Justiça do
Porto é considerado, por críticos da época, o trabalho de conceção mais moderna
de todos os realizados em escultura naquele edifício. Numa simplicidade de
linhas, D. Pedro de Pitões apresenta-se rodeado de algumas figuras de Cruzados,
com abundância de linhas geométricas, quer nas vestes episcopais, quer nas
armaduras dos guerreiros.
Em 1960, a dimensão
africana enriquece este corpus: realizou "África", um baixo-relevo em
faiança policromada destinado à decoração da fachada de um edifício na marginal
da Baía de Luanda, Angola. O uso da faiança policromada — incomum na sua obra —
revela uma capacidade de adaptação técnica ao contexto cultural e climático da
encomenda.
6. O Desenho e a
Pintura — A Série Íntima
A produção estética artística que melhor avalia a sua poética é a do desenho, área em que
deve ser considerado um dos mais significativos artistas da atualidade, e a da
pintura, na qual se encontra o seu estrato estilístico e onde se pode aferir a
sua excecional qualidade de poeta da imagem.
O próprio artista
revelou a centralidade desta série nas suas palavras: "Chateia-me estar
sempre a fazer o mesmo, por isso fui sempre procurando novas linguagens, novas
para mim, pelo menos. Passei a vida mais a desenhar, mais do que a fazer
escultura, desenhei, desenhei, desenhei."
O desenho em
esferográfica — técnica absolutamente não convencional na escultura portuguesa
do século XX — merece destaque especial. Exige precisão, não permite
arrependimento, e obriga à síntese imediata. Nestas obras sobre papel, Pereira
da Silva liberta-se das condicionantes da encomenda e da materialidade pesada
da pedra e do bronze, explorando com maior ousadia a geometrização da figura e
a tensão abstrato figurativa que é o centro da sua poética.
Leitura de
Conjunto
O que une todas
estas séries é uma premissa invariável: a orientação formal abstrata inspirada
na figura humana, em particular no homem e na mulher. A variação temática — do
religioso ao cívico, do íntimo ao monumental — não fragmenta a obra; antes
demonstra a fecundidade de uma linguagem que se revela suficientemente rica
para atravessar contextos muito distintos sem perder identidade.
A limitação crítica
que pode ser apontada é a da tensão nem sempre resolvida entre a exigência das
encomendas e a liberdade da pesquisa pessoal. Nas séries mais livres — o
desenho, a aguarela, as esculturas de atelier — o artista atinge uma coerência
e uma ousadia formal que o colocam entre os melhores da sua geração. Nas
encomendas públicas, essa ousadia é por vezes mitigada pela necessidade de
legibilidade e de representação convencional. Esta tensão, porém, longe de ser
uma fraqueza, é o espelho fiel da condição do artista modernista português do
século XX: entre a vanguarda e o mundo que o rodeia.





