Características da obra: A obra de Manuel Pereira da Silva divide-se em duas
vertentes principais: Esculturas realistas/académicas: Destinadas a encomendas
públicas ou privadas (bustos, monumentos, figuras comemorativas). Exemplos
incluem o monumento a Ulysses S. Grant em Bolama (Guiné-Bissau, 1955), a
Maternidade em bronze na Praça do Marquês de Pombal (Porto, 1958), o
baixo-relevo de D. Pedro Pitões no Palácio da Justiça do Porto (1961) ou figuras
de lavradores e bombeiros. Estas peças mostram domínio técnico sólido, herança
da formação académica, com boa integração no espaço urbano.
Esculturas e
desenhos abstratos: A parte mais pessoal e inovadora. Tem uma orientação formal
abstrata, mas sempre ancorada na figura humana (especialmente o homem, a mulher,
o casal, a família ou a dança). As formas são estilizadas, geométricas, com
volumes orgânicos simplificados, curvas e planos que sugerem o corpo sem o
literalizar. Trabalhou bronze, pedra (como a de Ançã), madeira, cerâmica e
desenhos em esferográfica, lápis ou técnica mista, frequentemente em séries
(Homem, Homem e Mulher, Abstração).
O desenho é central na sua prática — ele
próprio afirmava passar mais tempo a desenhar do que a esculpir. Nele revela-se
um “poeta da imagem”, com linhas dinâmicas, geometria e um rico imaginário
figurativo estilizado.
Análise crítica: Coerência e persistência: Ao longo de 60
anos, desenvolveu uma linguagem própria, evitando modas passageiras. A abstração
não é pura ou geométrica fria (como em alguns contemporâneos), mas humanista —
as formas mantêm sempre uma referência corporal, conferindo-lhes calor e
expressividade. Integração de tradição e modernidade: Soube conciliar o domínio
técnico académico com a liberdade modernista. Isto torna-o representativo da
escultura portuguesa do século XX, que muitas vezes navegou entre encomendas
conservadoras e pesquisa formal. Qualidade plástica: As peças abstratas têm boa
presença volumétrica, equilíbrio de massas e sensibilidade ao material. Os
desenhos são particularmente vibrantes e contemporâneos. Presença pública:
Deixou obra espalhada por Portugal e antigas colónias, contribuindo para o
património urbano.
Em resumo, Manuel Pereira da Silva não é um revolucionário da
escultura moderna, mas um artista sólido, consistente e humanista. A sua força
reside precisamente na síntese equilibrada entre figura e abstração, num diálogo
contínuo com o corpo humano como fonte primordial de forma. A sua obra resiste
bem ao tempo pela elegância formal e pela sinceridade expressiva, constituindo
uma referência importante da escultura portuguesa do segundo terço do século XX.
Hoje, o seu legado é preservado em coleções privadas, espaços públicos e
exposições de homenagem (como Envolvências), e continua a ser valorizado em
leilões e pelo trabalho de divulgação da família. Uma reavaliação mais profunda
do seu desenho e da produção abstrata poderia ainda elevar o seu lugar no cânone
nacional.
A relação entre desenho e escultura na obra de Manuel Pereira da Silva
é central, orgânica e hierárquica: o desenho não é um complemento ou exercício
paralelo, mas o fundamento do seu processo criativo e a raiz da sua poética. O
próprio artista o afirmava explicitamente: “Passei a vida a desenhar, mais do
que a fazer escultura, desenhei, desenhei, desenhei."
O desenho como matriz
criativa: Manuel Pereira da Silva via o desenho como o espaço de liberdade máxima,
experimentação e geração de ideias. Era aí que explorava variações infinitas
sobre os seus temas recorrentes (o Homem, a Mulher, o Casal, a Família, a Dança,
a Maternidade, abstrações geométricas ou orgânicas). Usava sobretudo
esferográfica (caneta Bic) em folhas A4 — um meio rápido, económico e
democrático —, mas também lápis, crayon, técnica mista, guache e aguarela.
Esses
desenhos funcionavam como estudos preparatórios num fluxo contínuo: Desenho
inicial (A4 ou pequeno formato) — exploração linear, gestual e composicional.
Ampliação para cartolina ou formatos maiores. Passagem ocasional para pintura
(desenho a lápis na tela + cor). Transposição para a terceira dimensão: barro,
gesso com estrutura de alumínio e, finalmente, bronze (quando encomendado).
Esta
cadeia revela que a escultura era, na maioria das vezes, a materialização final
de uma ideia gestada e refinada bidimensionalmente. O desenho permitia-lhe
testar ritmos, equilíbrios de massas, simplificações geométricas e estilizações
da figura humana sem o peso material e temporal da escultura.
Afinidades formais
entre os dois meios. A linguagem visual é coerente entre desenho e
escultura: Linha como geradora de volume — Nos desenhos, as linhas curvas, tensas
ou geométricas sugerem volumes, torsões e espaços negativos que depois se
concretizam nas esculturas.
Estilização abstrato-figurativa — As formas nunca
são puramente geométricas ou totalmente naturalistas. Mantêm sempre uma
referência ao corpo humano, com simplificação orgânica que funciona tanto na
bidimensionalidade (ritmo da linha) como na tridimensionalidade (equilíbrio de
massas e planos). Sensibilidade ao ritmo e à dinâmica — Muitos desenhos evocam
movimento (dança, abraço, maternidade), que a escultura torna táctil e espacial.
Os críticos do artista sublinham que o desenho revela o “poeta da imagem” que
habita o escultor: mais livre, prolífico e experimental. Enquanto a escultura
(especialmente as encomendas) exigia compromisso com o cliente, o espaço público
e a durabilidade, o desenho era o território da pesquisa pessoal e da invenção
quotidiana.
Significado mais amplo na trajetória do artista: Esta relação insere
Manuel Pereira da Silva numa tradição clássica (desenho como fundamento da
escultura, como em Michelangelo ou Rodin), mas atualizada pelo modernismo. Ao
contrário de escultores que pensam diretamente no volume ou no material (como
alguns minimalistas ou construtivistas), ele pertence à linhagem que privilegia
o desenho como pensamento plástico. O seu ensino de Desenho e Educação Visual
durante décadas reforça esta centralidade.
Em exposições como Envolvências, o
público pode ver lado a lado desenhos e esculturas, percebendo como uma mesma
ideia evolui do traço rápido para a presença física. Os desenhos não são meros
preparatórios: muitos são obras autónomas, com valor estético próprio, vendidos
e colecionados independentemente.
Em síntese, no universo de Manuel Pereira da
Silva o desenho é o laboratório da forma e a escultura é a sua concretização
monumental. Um não existe sem o outro: o primeiro dá a ideia e a vitalidade; o
segundo dá peso, permanência e presença no espaço. Esta interdependência explica
a coerência da sua obra ao longo de seis décadas e faz do seu desenho uma das
vertentes mais vibrantes e subestimadas da sua contribuição para a arte
portuguesa do século XX. É através do desenho que o escultor se revela
plenamente como criador.
Os desenhos em esferográfica (caneta Bic) constituem
uma das vertentes mais pessoais, prolíficas e reveladoras da obra de Manuel
Pereira da Silva. São o núcleo do seu processo criativo e uma expressão autónoma
de grande valor, muitas vezes subestimada face à escultura pública.
Técnica e
material: Manuel Pereira da Silva utilizou abundantemente a esferográfica preta
(normalmente Bic) sobre papel ou cartolina, em formatos modestos como A4, 30x43
cm ou 50x65 cm. Esta escolha não é casual: trata-se de um instrumento barato,
acessível, de traço contínuo e preciso, que permite rapidez, acumulação de
linhas e variação de pressão para criar densidades, sombras e texturas. Ao
contrário de técnicas mais “nobres” como o lápis ou o carvão, a esferográfica
impõe irreversibilidade — o traço é definitivo —, o que força uma gestualidade
segura e uma economia de meios. O artista explora o potencial gráfico da linha:
sobreposição, cruzamento, paralelismo e modulação de espessura, gerando efeitos
de volume, profundidade e ritmo sem recorrer à cor (embora por vezes combine com
outros meios).
Temática e linguagem formal: Os temas são consistentes com o
resto da sua produção: Figura humana estilizada — Homem, Mulher, Casal (Homem e
Mulher), Família, Maternidade. Movimento — Dança. Temas religiosos —
Crucificação, Cristo. Abstração — Formas geométricas ou orgânicas derivadas do
corpo (Abstração).
A linguagem é abstrato-figurativa: as formas humanas são
simplificadas, geometrizadas e fragmentadas em planos e volumes sugeridos por
linhas. Nunca chega à abstração pura nem ao realismo descritivo. O corpo é
reduzido a essências rítmicas e volumétricas — curvas que evocam torsos, braços
entrelaçados, posturas dinâmicas —, mantendo sempre uma forte referência
antropomórfica.
Esta estilização aproxima-o de influências modernistas (ecoando,
por exemplo, o cubismo analítico ou a simplificação de um Brancusi ou Moore),
mas com um carácter mais orgânico e humanista.
Qualidades plásticas e
expressivas: Ritmo e dinamismo — As linhas criam um forte sentido de movimento e
energia interna, especialmente nas composições de casais ou dança. Economia e
densidade — Algumas áreas são deixadas em branco (espaço negativo), enquanto
outras acumulam traços para sugerir massa e sombra, gerando um jogo de luz e
densidade muito eficaz. Intimidade e espontaneidade — Ao contrário das
esculturas de encomenda, estes desenhos revelam liberdade experimental. São
“pensamento em ato”: variações rápidas sobre o mesmo motivo, estudos de
composição e exploração formal. Poética — Os críticos referem-no como “poeta da
imagem”. A esferográfica permite uma fluidez lírica que contrasta com o peso
material da escultura.
Função no processo criativo: Os desenhos em esferográfica
são o ponto de partida quase obrigatório: Ideia inicial em folha pequena.
Desenvolvimento em cartolina. Possível passagem para pintura ou escultura (barro
→ gesso → bronze). No entanto, muitos são obras acabadas e autónomas, assinadas
e datadas, colecionadas e leiloadas independentemente. A sua proliferação
(milhares ao longo de décadas) mostra uma prática diária quase obsessiva.
Avaliação crítica: Democratização do gesto artístico — Uso de material
quotidiano eleva o banal a poético. Coerência com o percurso — Reforça a unidade
entre bidimensional e tridimensional. Valor histórico — Documenta a transição do
figurativismo para a abstração na escultura portuguesa do pós-guerra, num
registo pessoal e consistente. Acessibilidade — Formatos modestos e técnica
simples tornam-nos próximos do espectador.
Em síntese, os desenhos em
esferográfica de Manuel Pereira da Silva são o coração pulsante da sua obra: o
laboratório onde a forma nasce, respira e se reinventa diariamente. Revelam um
artista disciplinado, lírico e profundamente ligado ao corpo humano como fonte
inesgotável de abstração. Longe de serem meros preparatórios, constituem uma
contribuição original e coesa para o desenho moderno português — íntima,
rigorosa e humanista. Uma reavaliação mais sistemática destes milhares de traços
poderia ainda reforçar o lugar do artista no panorama nacional.
A linha em
esferográfica na obra de Manuel Pereira da Silva revela uma técnica madura,
controlada e funcional, diretamente ao serviço da estilização
abstrato-figurativa e da sugestão de volume tridimensional. O uso sistemático da
caneta Bic (esferográfica preta) impõe características específicas que o artista
soube explorar com eficácia.
Características técnicas da linha: Traço contínuo e
irreversível. A esferográfica produz uma linha de espessura relativamente
constante (finíssima a média, dependendo da pressão), sem possibilidade de
correção fácil. Manuel Pereira da Silva demonstra grande segurança gestual: os traços
são decisivos, com poucas hesitações visíveis. Isso confere ao desenho uma
fluidez e uma economia típicas de quem pensa a forma de modo direto e confiante. Modulação por pressão e sobreposição. Embora a caneta não permita variação
extrema de espessura como o lápis ou o pincel, o artista varia a pressão para
criar sutis diferenças de densidade. Mais importante: utiliza sobreposição de
linhas paralelas ou cruzadas para gerar: Sombras e modelado (hachuras densas);
Textura e massa volumétrica; Efeitos de profundidade através de densidade
gráfica (áreas mais escuras vs. áreas em reserva branca).
Direção e qualidade do
traço: Linhas curvas orgânicas dominam, sugerindo torsos, membros e movimentos
corporais. São fluidas, elípticas ou em “S”, evocando o ritmo do corpo humano.
Linhas geométricas e retilíneas aparecem em abstrações ou para estruturar
composições (planos, eixos, enquadramentos). Gestualidade controlada: o traço
não é frenético ou expressionista (como em alguns desenhos gestuais dos anos
50/60), mas sim intencional e construtivo, alinhado com a vocação escultórica.
As linhas definem contornos e, simultaneamente, constroem o interior da forma.
Jogo de positivo/negativo. O papel branco é ativamente usado como espaço
negativo. Muitas formas são sugeridas mais pela linha de contorno e pelas
reservas brancas do que por preenchimento completo. Isso cria leveza e
dinamismo, evitando que o desenho fique pesado apesar da acumulação de traços.
Função plástica e expressiva da linha: A linha em esferográfica funciona como
esqueleto da forma e como geradora de volume: Sugere tridimensionalidade através
de sobreposições e direções que indicam planos em profundidade (técnica próxima
de certos procedimentos cubistas ou da simplificação de Brancusi/Henry Moore).
Cria ritmo interno: séries de linhas paralelas ou onduladas geram sensação de
movimento (dança, abraço, maternidade). Mantém coesão formal: mesmo em
composições complexas (casais, famílias), a linha unifica a imagem, evitando
fragmentação excessiva.
Esta técnica é particularmente adequada ao processo do
artista: rápida para a experimentação quotidiana, económica e escalável (do A4
para formatos maiores). A irreversibilidade força uma disciplina que reforça a
coerência estilística ao longo de décadas.
Avaliação crítica técnica: Excelente
adaptação do meio às intenções: a esferográfica, muitas vezes vista como “menor”
ou utilitária, ganha nobreza através da precisão e da acumulação controlada.
Capacidade de transpor para a escultura: as linhas definem claramente arestas,
planos e centros de massa que serão depois materializados em barro ou bronze.
Unidade estilística: a linha mantém a mesma “caligrafia” pessoal — elegante,
orgânica e humanista — quer em estudos rápidos quer em desenhos mais acabados.
Em síntese, a linha em esferográfica de Manuel Pereira da Silva é construtiva,
rítmica e volumétrica. Não é virtuosismo gratuito nem explosão gestual: é uma
linha de escultor — pensada para definir, simplificar e projetar a forma no
espaço. Constitui uma das expressões mais puras e consistentes da sua poética
humanista, onde o traço bidimensional já contém em si a promessa da massa
tridimensional. Esta técnica modesta revela, paradoxalmente, a maturidade de um
artista que dominava o essencial: fazer da linha o pensamento da forma.