Contexto e Formação
Manuel Pereira da
Silva nasceu em Avintes, Vila Nova de Gaia, e revelou desde cedo uma aptidão excecional
para o desenho. Ingressou na Escola de Belas Artes do Porto, onde se distinguiu
como aluno brilhante, recebendo os prémios "Soares dos Reis" e
"Teixeira Lopes", e concluindo o curso com a classificação de 18
valores.
A sua formação foi
decisivamente ampliada pela experiência parisiense. Rumou a Paris na companhia
do seu condiscípulo, o famoso pintor Júlio Resende, onde frequentou vários
cursos de escultura e aprendeu a técnica do fresco. Estudou na École des
Beaux-Arts, conheceu todas as correntes artísticas e captou técnicas
revolucionárias de Picasso, Salvador Dalí e Miró, fossem elas de feição
abstratizante ou surrealista.
O ambiente cultural
da Escola do Porto foi igualmente determinante. Os estudantes de todos os
cursos — Arquitetura, Pintura e Escultura — conviviam intimamente, com
discussões acesas sobre o Modernismo na Arte e um latente inconformismo em
relação ao ensino clássico.
Contexto e
Formação
Manuel Pereira da
Silva nasceu em Avintes, Vila Nova de Gaia, e revelou desde cedo uma aptidão excecional
para o desenho. Ingressou na Escola de Belas Artes do Porto, onde se distinguiu
como aluno brilhante, recebendo os prémios "Soares dos Reis" e
"Teixeira Lopes", e concluindo o curso com a classificação de 18
valores.
A sua formação foi
decisivamente ampliada pela experiência parisiense. Rumou a Paris na companhia
do seu condiscípulo, o famoso pintor Júlio Resende, onde frequentou vários
cursos de escultura e aprendeu a técnica do fresco. Estudou na École des
Beaux-Arts, conheceu todas as correntes artísticas e captou técnicas
revolucionárias de Picasso, Salvador Dalí e Miró, fossem elas de feição
abstratizante ou surrealista.
O ambiente cultural
da Escola do Porto foi igualmente determinante. Os estudantes de todos os
cursos — Arquitetura, Pintura e Escultura — conviviam intimamente, com
discussões acesas sobre o Modernismo na Arte e um latente inconformismo em
relação ao ensino clássico.
Pluralidade de
Meios e Técnicas
Um traço marcante
da sua obra é a versatilidade técnica. Com um percurso que se inicia ainda na
década de 1940, Pereira da Silva revela os seus caminhos através do desenho, da
pintura, de aguarelas e guaches, painéis e murais; utilizando, além do suporte
tradicional, outros como a madeira, a cerâmica e, essencialmente, a escultura,
potencializando a pedra de Ançã e o bronze.
O seu desenho
merece destaque especial: a produção estético-artística que avalia a sua
poética é aquela do desenho, em que deve ser considerado um dos mais
significativos artistas da atualidade. Este dado é muitas vezes subvalorizado
pela crítica que privilegia a escultura monumental, mas o desenho em
esferográfica — técnica pouco convencional que utilizou com frequência — revela
uma capacidade de síntese e expressividade notáveis.
Obras de
Referência
O catálogo da sua
obra é extenso e de impacto no espaço público português. Entre as suas obras
destacam-se os frescos da Capela-Mor da Igreja de Santa Luzia de Viana do
Castelo, o baixo-relevo de D. Pedro Pitões no Palácio da Justiça do Porto, o
monumento ao Lavrador em Gulpilhares, os monumentos aos Bombeiros em Avintes,
Gondomar e Freamunde, e bustos de personalidades como Fernando Pessoa e José
Hermano Saraiva em Lisboa.
O baixo-relevo do
Palácio da Justiça do Porto é particularmente revelador do seu vocabulário
formal. Numa simplicidade de linhas, D. Pedro de Pitões apresenta-se rodeado de
figuras de Cruzados, com abundância de linhas geométricas, quer nas vestes
episcopais, quer nas armaduras dos guerreiros — um exemplo claro da sua
geometrização da figura histórica sem perda de narratividade. O crítico de arte
Joaquim Costa Gomes considerou-o o artista de conceção mais moderna de todos os
que colaboraram em obras de escultura no Palácio da Justiça do Porto.
Dimensão Social
e Cívica
Escultor com
elevada sensibilidade para as temáticas sociais, Manuel Pereira da Silva
colocou o seu talento ao serviço de figuras e profissões que representam o
tecido humano e comunitário da sociedade portuguesa. Os monumentos aos
bombeiros, ao lavrador, ao atleta — figuras do quotidiano e do trabalho —
revelam um artista comprometido com uma arte de raiz humanista, acessível e
enraizada no território.
Este posicionamento
distingue-o de um certo elitismo da arte moderna: a sua obra habita praças,
igrejas, tribunais e cemitérios — o espaço vivido pelas pessoas comuns —, o que
lhe confere uma presença cívica rara na escultura portuguesa do século XX.
Lugar na Arte
Portuguesa
Manuel Pereira da
Silva pertence a uma geração de rutura. Após a I Exposição de Abril de 1943 na
Escola de Belas Artes do Porto, emerge o futuro "núcleo duro" dos
"independentes", de que fazem parte Júlio Resende, Fernando
Fernandes, Nadir Afonso, Arlindo Rocha e Manuel Pereira da Silva. Este grupo
protagonizou a modernização da arte portuense, num momento em que o regime
salazarista promovia uma estética oficial conservadora.
Paradoxalmente, a
sua ligação ao espaço público — incluindo encomendas do Estado — não o tornou
um artista de regime: a sua linguagem modernista persistiu mesmo nos trabalhos
institucionais, o que demonstra uma integridade estética digna de nota.
Avaliação
Crítica
A obra de Manuel
Pereira da Silva merece ser lida como um projeto artístico coerente e maduro,
situado na tensão entre a tradição humanista e a vanguarda formal. A sua
limitação, do ponto de vista de uma crítica mais radical, poderia ser
precisamente essa mediação: nunca rompeu completamente com a figura humana nem
mergulhou no experimentalismo mais arriscado dos seus contemporâneos. Mas essa
posição intermédia tem o seu valor próprio — é uma obra que comunica sem
abdicar de rigor formal, que é moderna sem ser hermética.
Num país onde a escultura do século XX permanece sistematicamente sub-estudada, Manuel Pereira da Silva representa um caso de excelência discreta, cuja reavaliação crítica aprofundada está ainda por fazer.
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