A Maternidade (1958), instalada na Praça do Marquês de Pombal, é uma das obras públicas mais emblemáticas de Manuel Pereira da Silva e constitui um excelente exemplo da sua linguagem escultórica madura. Executada em bronze, a peça surge num momento em que o escultor consolidava uma síntese entre a tradição figurativa e as tendências modernistas que conhecera durante a sua formação e contacto com os meios artísticos europeus.
1. Análise
formal
O tema da
maternidade foi um dos mais recorrentes na escultura ocidental do século XX.
Contudo, Pereira da Silva afasta-se da representação académica tradicional da
mãe e do filho. Em vez de privilegiar o detalhe anatómico ou a descrição
sentimental da cena, opta por uma simplificação volumétrica das formas.
As figuras
apresentam-se como massas compactas e interdependentes. A mãe e a criança não
surgem como corpos autónomos, mas como uma única estrutura escultórica. Esta
fusão formal traduz visualmente a ideia de vínculo afetivo e biológico,
transformando o conceito de maternidade numa unidade plástica.
Os volumes são
suavizados, contínuos e fechados, evitando contrastes abruptos. A escultura privilegia:
- formas
arredondadas;
- linhas
curvas;
- equilíbrio entre cheios e vazios;
- redução dos
pormenores anatómicos;
- valorização
da silhueta global.
Esta síntese
aproxima a obra de certas soluções encontradas em escultores como Henry Moore e
Constantin Brâncuși, embora sem abandonar totalmente a legibilidade figurativa.
2. Dimensão
simbólica
O tema da
maternidade possui uma forte carga universal. A obra não representa uma mulher
específica, mas sim a ideia da mãe como princípio de proteção, continuidade e
origem da vida.
A relação entre as
duas figuras pode ser interpretada em vários níveis:
- biológico: a geração da vida;
- afetivo: o cuidado e a proteção;
- social: a família como núcleo
fundamental da comunidade;
- espiritual: a maternidade como
símbolo de criação.
O escultor evita
qualquer narrativa específica. Não existe contexto, cenário ou referência
temporal. Esta ausência de elementos acessórios universaliza o significado da
obra.
3. Modernismo e
humanismo
Um dos aspetos mais
interessantes de A Maternidade é a forma como conjuga modernismo formal
e humanismo temático.
Enquanto muitos
escultores abstratos da época se afastavam completamente da figura humana,
Pereira da Silva mantém-na como centro da sua investigação artística. Contudo,
procura libertá-la do naturalismo.
A figura humana
deixa de ser um objeto a copiar e transforma-se numa estrutura formal. A
maternidade deixa de ser apenas um acontecimento representado e converte-se
numa construção escultórica.
Esta posição
intermédia permitiu-lhe modernizar a escultura portuguesa sem romper totalmente
com a tradição, tornando a sua obra acessível ao público sem perder inovação
estética.
4. Relação com o
espaço público
A localização da
obra numa praça urbana é particularmente significativa.
A escultura foi
concebida para dialogar com o espaço coletivo. O seu carácter monumental não
resulta apenas das dimensões físicas, mas sobretudo da clareza da composição.
A simplicidade
formal facilita a leitura à distância. As grandes massas volumétricas captam a
luz de forma expressiva, criando diferentes perceções ao longo do dia.
Ao ser colocada num
espaço de circulação quotidiana, a maternidade deixa de ser um tema privado e
assume um valor comunitário. A obra funciona simultaneamente como elemento
artístico e como símbolo social da cidade.
5. Interpretação
crítica
Do ponto de vista
crítico, A Maternidade representa um momento importante na renovação da
escultura portuguesa do pós-guerra.
A obra evidencia:
- a influência da escultura moderna
europeia;
- a procura de síntese formal;
- a permanência da figura humana como
núcleo temático;
- a valorização de conteúdos
universais.
Alguns críticos
poderão considerar que a linguagem permanece relativamente moderada quando
comparada com as vanguardas internacionais mais radicais da década de 1950. No
entanto, essa moderação deve ser entendida no contexto português da época,
marcado por um ambiente artístico mais conservador.
Precisamente por
equilibrar inovação e legibilidade, A Maternidade tornou-se uma das
realizações mais conseguidas de Manuel Pereira da Silva e uma referência da
escultura pública portuguesa do século XX.
Conclusão
A Maternidade não é apenas uma representação de uma mãe com o seu filho. É uma reflexão escultórica sobre a origem da vida, a proteção e a continuidade humana. Através da simplificação das formas, da unidade volumétrica e da contenção expressiva, Manuel Pereira da Silva transforma um tema universal numa obra de forte impacto visual e simbólico. O resultado é uma escultura que permanece simultaneamente moderna, humana e intemporal, constituindo um dos exemplos mais sólidos da modernização da escultura portuguesa do pós-guerra.